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Em seu livro Cultura da Convergência, o autor Henry James disserta sobre a cultura de consumo envolvendo o filme Guerra nas Estrelas, e conta como a saga cinematográfica, além de se tornar um fenômeno comercial, inaugurou uma nova forma de se observar os espectadores - os quais ele chama de fãs cineastas. Segundo James, esses fãs cineastas são, na verdade, os espectadores fascinados pelos episódios da saga, que cresceram se vestindo de Darth Vader, lutando com sabres de luz improvisados e colecionando bonecos de Jedis. A ampla comercialização de bens relacionados a Guerra nas Estrelas, aliada à popularização da câmera digital, deu as ferramentas necessárias a esses fãs para que eles realizassem uma espécie de releitura participante da saga. Essa releitura era feita através de filmes amadores envolvendo personagens ou figuras icônicas da série, que eram protagonizados pelos próprios fãs e lançados na internet. Não demorou muito para que os produtores percebessem o fenômeno e começassem a explorar essa nova tribo de consumo, promovendo premiações oficiais para os melhores filmes e festivais.
Para Henry James, o filme digital feito pelos fãs está para o cinema assim como o punk está para a música: "Na época, experimentações alternativas geraram novos sons, novos artistas, novas técnicas e novas relações com os consumidores, que foram cada vez mais sendo utilizados em práticas comerciais. Hoje, os fãs cineastas estão começando a abrir caminho para a indústria comercial, e idéias efervescentes dos amadores - como o uso de games como ferramentas de animação - estão começando a ser utilizados pela mídia comercial."
O surgimento do cinema digital provocou mudanças drásticas na indústria cinematográfica, e estas ainda estão sendo, de certa forma, processadas (ou "digeridas", por alguns segmentos específicos dela). Além dos benefícios orçamentários, que vão desde barateamento das produções a redução de custos nos processos de transporte e exibição dos filmes, a tecnologia digital fez com que as câmeras se tornassem acessíveis às massas. Como disse Henry James - e assim como Marshall McLuhan já havia afirmado há tempos -, essa mudança não acontece somente por causa do surgimento do Cinema Digital, pois já vinha acontecendo desde que George Lucas iniciou a cultura dos wookies e siths com seu Star Wars. Sendo assim, o meio de comunicação surge para suprir uma necessidade desenvolvida pelos consumidores de atuarem como participantes do processo criativo - que já vinha acontecendo com a internet, por exemplo. Essa necessidade já era interna aos espectadores da nova era, e a câmera digital apenas serviu para materializá-la.
A cultura do "faça você mesmo" do cinema digital começa no final da década de 1990, como sucessora de uma era de espectadores órfãos dos drive-ins e acostumados com a estética analógica. A película de 35 mm, que hoje talvez seja considerada uma tecnologia ultrapassada, era o formato de filme padrão para produções profissionais. Um rolo de 35 mm custava caro, e manusear uma câmera analógica exigia técnica. O processo de edição era feito na moviola, e o profissional tinha todo um trabalho manual de cortar e colar os fragmentos de filme, cena a cena. Quanto mais cenas eram filmadas, mais rolos de filme eram precisos, o que significava mais dinheiro a ser gasto. Resumindo: tratava-se de um processo muito caro, que exigia experiência e técnica, o que acabava representando uma barreira de entrada para o negócio. O que o cinema digital fez, nas décadas seguintes, foi reduzir cada vez mais essas barreiras, de forma que um iniciante pudesse vir a se tornar um cineasta (como foi o caso de alguns jovens diretores da safra de filmes de suspense e terror que apareceram nos anos 2000).
A Crise dos 35 mm
Em seus primeiros anos, o filme digital enfrentou uma certa resistência por parte da indústria. Do ponto de vista estético, diretores mais clássicos afirmavam que a digitalização distorcia as cores da imagem e não era capaz de reproduzir o visual widescreen que o filme analógico conseguia imprimir. Do ponto de vista comercial, a discussão era em torno da falta de controle sobre a distribuição e exibição das obras, uma vez que os cinemas ainda não possuíam tecnologia de exibição digital. Para resolver a questão comercial, foi feita uma padronização dos equipamentos e formatos de cinema, onde os estúdios americanos se uniram para criar o Digital Cinema Initiatives (DCI). Para as salas de exibição, restaram apenas duas opções: adequar-se ao novo padrão comprando projetores digitais, ou fazer a transição completa para o modelo novo, deixando para trás os projetores analógicos. A segunda opção parece ser a melhor saída por um olhar de fora, porém, para muitos donos de cinema - principalmente nos Estados Unidos - ela representava uma ameaça.
Para as salas do circuito comercial, os grandes cinemas, a transição total para os projetores digitais é perfeitamente viável, uma vez que essas salas exibem apenas lançamentos. Já para as salas menores, as art-houses, e os cinemas de repertório, cuja programação consiste em filmes antigos e fora de circulação, não fazer a transição significa ter que sair do mercado. Isso porque elas dependem inteiramente dos estúdios para receber os rolos de filmes - e a maioria deles vem mantendo esses rolos lacrados, na tentativa de forçar as salas de exibição a adotarem a nova tecnologia. Fora isso, alguns filmes gravados em película não fizeram sequer a transição para DVD, portanto dificilmente serão remasterizados em DCI. Existe, então, a possibilidade de que algumas obras de arte sejam perdidas por conta da padronização estipulada pelas majors - e tal possibilidade é temida tanto pelos cinemas de arte, quanto por cineastas que se mostram reticentes ao novo modelo digital.
Salvem os revilvals!
Recentemente, uma americana chamada Julia Marchese iniciou uma saga pela internet, pedindo doações para poder realizar um documentário. Julia trabalha como bilheteira no conhecido New Bervely Theatre - um cinema dedicado a filmes antigos, localizado em Hollywood, comprado a pouco tempo pelo diretor Quentin Tarantino - e teme que a sala possa sair de circuito por conta da chegada da era digital. Segundo ela, abdicar dos projetores de 35 mm implicaria em uma perda de quase 90% do acervo de filmes do New Bervely, e deixaria uma multidão de cinéfilos frequentadores do cinema enfurecidos.
Em seu documentário, intitulado Out of Print, Julia se pretende a abordar a importância histórica do New Bervely Theatre e, através de depoimentos de diretores que tiveram seus filmes exibidos lá, discutir a questão do filme digital e o impacto que ele vem provocando na cadeia de exibidores de menor porte americana, que põe inclusive seu emprego em cheque. "Os estúdios (donos dos filmes antigos) nos enviaram uma carta, prometendo recolher seus rolos de 35 mm. Ano passado, fiz uma petição pedindo aos estúdios que deixassem esses rolos disponíveis para oscinemas revivals. Consegui arrecadar 10.000 assinaturas de amantes do cinema de 60 países ao redor do mundo" - diz Julia.
A aspirante a documentarista gravou um pequeno vídeo onde explicava sua idéia e pedia para que aqueles que estavam assistindo compartilhassem o vídeo com o maior número possível de pessoas. Criou uma conta no twitter para o projeto, e conseguiu mais de cem mil seguidores em poucos meses. Para arrecadar as doações, fez uma página na internet com uma explicação detalhada sobre o orçamento de seu filme, e disponibilizou um link onde pessoas do mundo inteiro podiam doar pelo cartão de crédito ou paypal. Em pouco menos de dois meses, o projeto conseguiu arrecadar $81.570 dólares - 6 mil dólares a mais do que a meta - através de 859 doadores. O documentário está sendo produzido em Los Angeles, e Julia posta diariamente em seu twitter atualizações sobre ele.
Julia Marchese faz parte da leva de espectadores da era do cinema analógico, de uma cultura onde a experiência das salas de cinema se resumia em apreciar a sensação visual que a exibição do telão podia proporcionar aos olhos. Ir ao cinema era diferente de alugar um VHS, porque no cinema existia a experiência, um contato mais íntimo entre o espectador e o filme. A película de 35 mm faz parte dessa experiência, pois ela dá ao filme uma estética diferenciada, que só é possível de ser percebida dentro do cinema. Enquanto no início da década de 1990 Julia integrava a massa do público dos cinemas, hoje em dia ela se enquadra, talvez, dentro de um nicho de mercado, em meio a outros poucos órfãos da estética oitentista. Já o público atual, que nasceu inserido na era digital, tem uma noção diferente sobre a experiência do cinema: trata-se de uma experiência multissensorial, que envolve muito mais do que só imagem e som. Como se observa hoje, os cinemas vêm cada vez mais investindo nas múltiplas sensações provocadas pelo filme, através do 3d e do 4d, do som digital, entre outros. Em termos de produção, temos de volta o argumento de Henry James sobre a cultura do "faça você mesmo": em meio à democratização do acesso à informação promovida pelas mídias modernas, cresce um indivíduo capaz de exercer poder sobre aquilo que ele consome. Diante desse poder, como oferecer a ele algo inovador?
John Fithian, presidente da Associação Nacional dos Proprietários de Cinema dos Estados Unidos, é um dos maiores críticos do filme digital. Seu principal argumento é a distorção estética que a tecnologia provoca nos filmes atuais e que, segundo ele, faz com que eles se pareçam com exibições em aparelhos de DVD. "Porque eu iria cobrar das pessoas por uma coisa que elas podem assistir em casa?" - diz ele. E, até certo ponto, ele está certo. O problema é que essa pergunta ignora um elemento importante que deve ser levado em conta nessa discussão, que é a cultura. Não seria essa nova estética fruto de uma nova cultura? E se existem os DVDs, porque há pessoas dispostas a pagar para ir ao cinema?
De todas essas discussões, o mais importante de se frisar é aquilo que McLuhan insistia em repetir em seus estudos sobre as mídias culturais: um novo meio de comunicação não surge para substituir um antigo, uma vez que ele faz parte de um processo de mudança. Dito isso, é preciso pensar que o filme digital não representa o fim do filme analógico - ao contrário, é importante que o valor estético e cultural da película seja compreendido e preservado, tanto por uma questão de acervo, quanto pela liberdade do cineasta de escolher o processo criativo que deseja seguir. Até porque, padronizar o processo criativo significa limitar a arte, e isso é uma medida totalmente incoerente.
Por: Ana Luiza Perrone
30 de Setembro de 2012.

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